Ao segundo dia de repouso, cuidaram em jornadear para Aveiro. Pouco antes da partida, chegou a Coimbra um proprio enviado da casa de José de Barredo; noticiando-lhe que sua mulher estava em perigo de vida. Desfez-se o plano de irem juntos a Aveiro, e foram juntos para Bragança; Francisco Luiz de Abreu quiz acompanhar o velho amigo, no proposito de lhe desacerbar as lagrimas da viuvez, se a desgraça fosse inevitavel.
Era. Francisco Luiz assistiu aos funeraes da esposa de José de Barredo. E quando o velho parecia conformar e esquecer-se entre as caricias de muitos filhos, despediu-se por alguns dias, e saiu sósinho de Bragança em direitura a Aveiro.
XII
Historia de Antonio de Sá
Recebeu Braz Luiz de Abreu aviso para ir ver um hespanhol que pousara enfermo na estalagem.
Francisco Luiz queixou-se de varias molestias, ouviu o parecer do medico, pagou-lhe generosamente e pediu-lhe que o visitasse todos os dias.
Dos remedios receitados não se aproveitou, porque os achaques eram phantasticos, e bem sabia o doutor Abreu como era facil enganar outro doutor Abreu.
No dia seguinte, o Olho de Vidro encontrou melhorado o seu doente, e sentiu-se ufano do acerto com que cortára pela raiz uma doença, com a qual se tinham enganado os principaes medicos de Hespanha, segundo a confissão do doente.
Já o doutor Braz queria espacejar as visitas: o hespanhol, porém, instava, pagando-as a brio, que não lhe faltasse diariamente com ellas.
Estava sendo celebrado em Aveiro este triumpho recente do Olho de Vidro.
Já o convalescente se julgava restaurado, e o doutor como tal o déra; o forasteiro, porém, affeiçoado á terra onde se recobrara, determinou passar n'ella a primavera de 1732, e voltar nutrido a Castella, de modo que os medicos madrilenses se comessem de inveja dos seus collegas portuguezes.