O doutor Braz, como visse no seu enfermo D. José Aristizaval (assim era conhecido em Aveiro) excellentes qualidades, contando n'estas a bizarria indicativa de riqueza, convidou-o a servir-se de sua casa e da convivencia de sua esposa e filhos, os quaes, dizia Braz Luiz, são tantos que bastam a formar uma assembléa em Aveiro ou saráo d'aldeia, que monta o mesmo.
Agradeceu e aceitou o convidado o offerecimento; e, logo á primeira visita, brindou a esposa do seu medico e as cinco meninas, formosuras muito de se verem, cada uma com sua joia de preço. Reparou logo e de relance em D. Josepha, e recordou uma por uma as feições de D. Maria Cabral.
Ficaram as meninas contentissimas dos presentes, que eram braceletes de oiro, mandadas comprar ao Porto, com a designio já posto no destino que tiveram. Entretido n'estas coisas, mistura de puerilidade e bons sentimentos, o espirito de Francisco Luiz ía cobrando alento e certa energia. Grande parte n'esta sua insolita actividade era por certo a esperança de saber pelo miudo a vida tragica do seu amigo Antonio de Sá.
Seguiram-se as visitas e foi-se apertando a intimidade. As meninas e os rapazes folgavam muito de ouvir o velho D. José contar historias curiosas das suas navegações. Um dia, veio ao ponto uma batalha de corsarios com uma náo hollandeza, em que elle viajava na costa de S. Domingos.
—De S. Domingos!?—exclamou D. Josepha.—Já esteve n'esses sitios vossemecê?
—Avistei-os—disse o hospede.
E inventou uma rija peleja entre hollandezes e piratas, descripção temerosa que tinha os ouvintes espavorecidos.
Terminou o saráo d'aquella noite; e, na seguinte, Braz Luiz de Abreu, cada vez mais entrado de affecto ao hespanhol, lhe disse:
—D. José Aristizaval, hoje sou eu o narrador de desventuras de navegantes. A historia que eu vou referir só a sabe em Portugal minha mulher e eu: de hoje ávante ficam-na sabendo o meu honrado hospede, que a não ha de repetir a portuguezes, e os meus filhos, que por interesse seu, hão de calal-a.
—Honrado sou eu por benevolencia do doutor—se vossemecê me considera egual com seus filhos no merecimento de entrar no segredo de seus paes, respondeu Francisco Luiz.