—É segredo de tanto porte—accrescentou o medico, abaixando a voz—que não sei d'outro em minha vida com que possa mostrar-lhe a confiança que me merece, senhor D. José.
E, passados alguns segundos, Braz Luiz de Abreu, silenciosos profundamente os ouvintes, principiou assim:
—Minha sogra era filha de um dos primeiros fidalgos de Traz-os-Montes. O solar dos Cabraes de Carrazedo é um dos mais antigos de Portugal. Meu sogro era hebreu, e chamava-se Antonio de Sá Mourão, natural da Guarda.
Fugiram de Portugal com admiravel fortuna, e casaram-se segundo o ritual hebraico, presumo eu. Meu sogro, ao tempo da fuga, estudava medicina, e tomou gráo em uma das universidades estrangeiras. Esteve alguns annos na Europa; e, como o dominava a paixão de ser rico, aceitou partido muito vantajoso que os francezes lhe offereciam no Canadá, e embarcou em Marselha, quando minha mulher era creancinha.
Na altura da costa de S. Domingos, a náo em que elle se embarcára perdeu o rumo, e foi levada contra a costa, por não ter tempo de fazer-se ao mar quando a tormenta se levantou. Antes que o navio se despedaçasse, alguns passageiros aventuraram-se n'uma lancha a ganharem a praia por entre as fauces da morte. Com os aventureiros ia meu sogro, e a esposa com a filhinha nos braços, dispostos a descerem ao abysmo abraçados.
Já perto de terra, onde levavam postos os olhos, avistaram dois navios de pequeno lote, e chusmas de tripulantes vestidos de trajos extravagantes. Um conhecedor d'aquelles mares reparou nos homens da patria, que se moviam vertiginosamente, e exclamou:
—São os demonios do mar! São flibusteiros![30] Vejam lá o que querem: morrer no mar ou no captiveiro d'aquellas bestas-feras?
Ninguem optou por morrer no mar. Os passageiros da lancha, bebendo a morte a cada instante, conclamaram que antes queriam o captiveiro do que a morte horrivel de afogados.
Antes de chegarmos a terra, ouviu-se uma grande celeuma do mar a dentro. Olhámos todos para a náo, e vimol-a sossobrar, e uma montanha de vagas abater-se sobre ella. Soltámos um grito unisono de consternação! Alguns dos aventureiros gritavam por esposas, por paes e filhos!... Que situação, senhor D. José! D'um lado, aquelle naufragio horroroso, do outro os flibusteiros, que esperavam anciosos a prêsa, que se lhe ia entregar aos ferros. Assim que a lancha bateu em terra, os bandidos rodearam a prêsa, e mal ouviram não sei que palavras ditas por meu sogro a sua mulher, bradaram todos: «Cá temos um cão de hespanhol!» E a um tempo se lançaram todos a elle, como se entre si disputassem com especial odio a posse d'aquella victima distincta das outras. Como se explicava o particular rancor que os flibusteiros tinham aos hespanhoes?
—Se eu não receasse interromper a sua interessante historia—disse Francisco Luiz—lhe daria a razão d'esse odio, se é que sua esposa não quer explicar-lh'o melhor do que eu sei, por m'o haverem contado e não por experiencia.