—Minha mulher, disse Abreu, ignora-o, porque muitos annos viveu longe do trato de tal gente, e não sabe explicar-m'o.
—Em poucas palavras o farei—tornou o hospede.—Os pontos essenciaes da ilha e costa de S. Domingos pertenceram aos hespanhoes. Um dia, chegaram á costa septentrional d'aquellas possessões algumas galeotas de aventureiros francezes, mesclados com malfeitores foragidos de todas as nações, homens sem patria, escapados do cadafalso, feras tremendas, que precisavam embriagar-se de sangue para gosarem algum prazer n'este mundo. A estas escorias sociaes congregaram-se outras da mesma indole saidas de Guadelupe, de Granada e da Martinica. N'aquellas vastas florestas acharam que farte sustento, na abundancia de manadas de toiros bravos, de javalis, e vaccas mansas, que os hespanhoes por lá deixaram medrar e multiplicar. A riqueza de cada um de estes bandidos compunha-se de uma boa matilha de rafeiros, d'uma enorme espingarda, duas camisas, uma jaleca, um chapéo de feltro, um calção, e uma grossa correia á cinta com uma espada curta e tres facas de matto pendentes. As casas d'elles, durante as sortidas á rapina, eram barracas de fina lona, com a qual se defendiam das ferroadas dos moscardos e das geadas homicidas. Viviam aos dois, antes que a França lhes mandasse mulheres, e, por morte de um, era herdeiro o outro. Raras vezes se desavinham, e quando se desafiavam matavam-se a tiro de espingarda. Se o morto não recebesse os pelouros pela frente, o assassino era logo degolado como traiçoeiro.
O principal commercio d'elles era carnes seccas e pelles, que iam vender ás enseadas da costa, mediante uns assalariados, que tratavam entre elles e os compradores, na esperança de voltarem ricos da America, onde se lhes ia a vida em durissimo captiveiro.
Quando os hespanhoes da ilha de S. Domingos deram tento dos salteadores nas visinhanças das ilhas, tiraram-se da lethargia de suas riquezas, pediram tropas ao rei de Hespanha e fizeram guerra implacavel aos flibusteiros, matando-lhes muitos dos mais audazes. D'este começo de exterminio se gerou o odio dos bandidos á Hespanha, e mais ainda por causa do golpe mortal que soffreram, quando as tropas entraram ás mattas, e mataram os rebanhos mansos e bravos, que o mesmo foi seccar as fontes de subsistencia d'aquellas hordas. Eis aqui, a meu ver, a origem do inquebrantavel rancor dos chamados demonios do mar. Agora, vamos á historia do senhor Antonio de Sá, meu sogro.
—Meu sogro, minha mulher e filho—continuou Braz de Abreu—foram remettidos á Martinica n'uma galé, que vogava com mais de cem homens. O capitão dos flibusteiros residia alli, como governador, e chamava-se Duparquet...
—Devia ser filho—atalhou Francisco Luiz—de um francez tambem chamado Duparquet, levado ás honras de governador em 1637 por Luiz XIII de França, a quem convinha aliançar-se com tão honrados vassallos.
—Duparquet, sabendo que o hespanhol captivo era medico, tratou-o com alguma affabilidade, e encarregou-o de lhe curar de cameras uma filha. Meu sogro saiu felizmente do encargo, e foi considerado por isso medico da casa do governador. N'aquelle anno, que me parece seria o de 1697 ou 98, segundo as confusas lembranças de minha sogra, meu sogro foi mandado embarcar n'uma náo de quatro peças, da qual se arvorára almirante um francez chamado Legrand, o mais temivel flibusteiro d'aquelles mares. Antonio de Sá curou muitos mutilados n'uma abordagem aos galeões de Hespanha, e, pela pericia com que o fez n'um grave ferimento de Legrand, ficou desde logo nomeado escravo e medico do almirante. Meu sogro assistiu ao assalto de Maracaibo, riquissima cidade e bem guarnecida, que se deixou entrar e saquear por quatrocentos salteadores.
Tambem assistiu á tomada de Carthagena pela esquadra franceza, auxiliada por flibusteiros, que lhe deram a victoria.
No afogo d'esta peleja, Antonio de Sá, quando estava pençando as feridas de seu senhor, foi gravemente ferido de bala. A convalescença foi longa. N'este intervallo, em que elle se tornára inutil, pediu licença para ir vêr á Martinica sua mulher e filha. Negaram-lh'a; mas concederam-lhe que a familia o fosse visitar nos arraiaes movediços de sobre as ondas.
Legrand tinha residencia em S. Domingos, onde se desfadigava das batalhas navaes, exercitando os seus leões do mar. Obrigou, portanto, o prezadissimo escravo a viver com elle. D. Maria, minha sogra, passou á companhia do marido, e minha mulher que tinha então seis annos, ficou em casa do governador da Martinica, por que a filha predilecta de Duparquet se habituára a consideral-a a sua escrava loura.