Por muitas vezes, Antonio de Sá Mourão supplicou a Legrand, que, em paga de seus serviços, o deixasse passar com sua familia á Europa. O francez, importunado pela teimosia de taes rogos, ameaçou-o de o mandar matar, se elle tentasse fugir! É onde podia chegar a gratidão do flibusteiro almirante!
Minha sogra me disse que, decorridos cinco annos, o marido escrevera desde S. Domingos a um amigo muito querido, que tinha em Portugal. A carta, porém, foi devolvida passados dias a Antonio de Sá, com a seguinte reflexão do governador almirante: «Os escravos dos flibusteiros, se teimam em escrever cartas para Hespanha, correm o perigo de não poderem já ler as respostas, quando ellas voltarem.»
Nunca mais Antonio de Sá escreveu ou tentou escrever para Portugal.
O medico ia enriquecendo com as liberalidades dos flibusteiros; porém, um dia, achou-se roubado, não obstante ser pouquissimo vulgar o latrocinio entre elles. Seria porque ao portuguez ou hespanhol o consideravam estranho á sua tribu, e como tal indigno de se gosar dos foros de lealdade, que uns com outros guardavam.
Minha mulher corria por este tempo nos seus dez annos. O pae consternava-se de a ver crear-se entre gente brutal, e rodeada de creaturas ignobeis do seu sexo, recenseadas nos lupanares de Paris e de Marselha, enviadas como presas ás colonias.
Antonio de Sá, aproveitando o lanço de ter captivo o animo do governador, depois da cura de doença grave, pediu-lhe licença para enviar a filha a educar-se n'uma casa de religiosas francezas. O governador condescendeu, e enviou duas netas ao mesmo collegio, na primeira náo que saiu para França.
Meus sogros presumiam que lhe seria menos embaraçada a fuga podendo passar a filha á Europa. Enganaram-se; por que Duparquet, arrependido da concessão, redobrou de vigilancia sobre os menores passos do seu medico.
XIII
Seguimento da historia
—Antonio de Sá—proseguiu Braz Luiz—foi chamado a curar de febres um judeu rico da Normandia, que se passara com grande companhia de hebreus pobres a fundar uma colonia na costa de S. Domingos, com licença do rei de França e beneplacito do governador. Meu sogro, cumulado de liberalidades do seu restabelecido enfermo, deu-se por bem pago da amizade do hebreu, a quem se revelou proscripto da nação fiel, e evidenciou sua origem, praticando com elle as ceremonias judaicas.
O colonisador estimava-o muitissimo. Animou-o a declarar-lhe o seu intento e pedir-lhe coadjuvação para a fuga. Não lhe encareceu o hebreu grandes difficuldades á boa saida do plano; assegurou-lh'a facil, logo que, fundada e solidificada a colonia, elle se fizesse na volta de França.