O medico, alentado de esperanças, aguardou anno e meio a almejada hora; todavia, minguou-lhe a necessaria prudencia, porque, sem grande recato, começou de longe a simplificar os valores que tinha, trocando-os por pedras preciosas e coisas de facil transporte.
Chegado o tempo da saida do opulento hebreu, conforme ao plano gizado pelos dois, inventaram uma epidemia na colonia, e pediu-se ao governador a assistencia do medico hespanhol. Duparquet mandou conhecer da epidemia clandestinamente por um cirurgião francez, fugido das galés de Marselha, e foi certificado de que era imaginaria a contagião. Foi o hebreu normando chamado á Martinica, quando já Antonio de Sá se desconfiava de certos tregeitos que vira na má cara do governador. O judeu, porém, mais desconfiado ainda que o seu protegido, respondeu affirmativamente ao commissario de Duparquet, e em vez de velejar para Martinica, mandou aproar ás ribas normandas e accender os morrões para incutir respeito ás galés de flibusteiros ancoradas na costa.
Antonio de Sá foi o bode expiatorio da affronta, se mais bodes não foram os judeus da colonia que o governador mandou passar á espada, sem perdoar sequer a mulheres e crianças. Meu sogro teria sido espingardeado, se a esposa se não lançasse em joelhos aos pés da filha de Duparquet, a quem o marido por duas vezes arrancara ás presas da morte.
Depois de preso alguns mezes, Antonio de Sá foi chamado á presença do governador e perdoado. Prégou-lhe o francez um demorado sermão, recheado de censuras contra o feio crime de ingratos da laia d'elle medico, o mais venturoso homem que ainda tinha caído em unhas de flibusteiros, e homem de mais a mais filho das Hespanhas. Lembrou-lhe os beneficios desusados com que lhe galardoara os seus bons serviços como medico, e os conselhos que lhe dera sobre o modo de enriquecer-se e constituir-se um dos mais ricos proprietarios das colonias de S. Domingos. Lembrou-lhe o resgate que lhe dera da filha, tendo-a aliás destinada, como formosissima que era, a casar com um seu neto.
Antonio de Sá respondeu com muitas lagrimas, talvez suggeridas pelo recordar-se da filha, e desesperança de tornar a vel-a. Estas lagrimas compadeceram o governador, que o abraçou estreitamente, e lhe pediu que se deixasse estar até que um dia passassem ambos a França.
O medico resignou-se e esperou.
Entretanto, senhoreou-se d'elle presadissima tristeza, que a pobre esposa não sabia nem podia consolar. Esquartejava-lhe o coração aquelle espectaculo de incessante latrocinio e sordido desavergonhamento de costumes. Olhava contra o mar, e perdia a vista afogada nas lagrimas, exclamando: «Não hei de mais ver-te, ó minha filha... não hei de mais ver-vos, meus filhos...»
—Pois elle tinha mais que uma filha?—perguntou Francisco Luiz de Abreu.
—Essa mesma pergunta fiz a minha sogra—disse Braz—; mas a resposta era um silencio indecifravel, um esquisito amuar, que nem eu nem minha mulher ainda agora podemos atinar o que fosse... A meu juizo, minha sogra padecia umas turvações, a revezes, durante as quaes era preciso que a gente se não demorasse a querer entendel-a ou interrogal-a, que então rompia em alto choro ou carregava iradamente a sobrancelha.
Meu sogro foi um dia com sua mulher supplicar ao governador que os deixasse sair, ou os mandasse matar.