—Vossemecê vivia em casa d'elles?
—Vivia, desde os seis annos, como já lhe contei. Passados alguns, Heitor foi para Coimbra, e levou-me comsigo. Prestacionou-me para eu entrar no collegio de S. Paulo. No principio do anno de 1704. Heitor Dias foi preso, e sómente depois de 1707 alguns mezes, soube que a inquisição o condemnára a ser queimado vivo, e que o ancião—o desgraçado que não tinha outro filho, e chorava a mulher na sepultura ainda fresca—saindo ao encontro da procissão do auto da fé, se suicidara em presença de Heitor.
Francisco Luiz de Abreu levantou-se hirto, de golpe, tremente e pallido.
Este movimento como que levantou o marido de D. Josepha pelos cabellos, sem que elle comprehendesse a força mysteriosa que o repuchava.
—Que tem, D. José?—perguntou o medico.
—Eu não comprehendo o horror da sua situação!—murmurou Francisco de Abreu em legitima lingua portugueza, tapando os olhos com as mãos convulsivas.
—Não comprehende o que?!—interpellou Braz estranhando grandemente a mutação de linguagem.
—Como se chamava seu pae?—perguntou com palavras intercortadas pela abafação o hospede.
—Não sei...—tartamudeou o interrogado.
—Porque se chama Braz Luiz de Abreu? Como ajuntou este sobrenome e appellido ao seu nome baptismal?