—Porque assim o achei escripto n'um abcedario da minha infancia.
—Que desgraça!—exclamou Francisco Luiz, e começou passeando vertiginosamente na sala!—Que desgraça, Deus do céo!...
Braz encarava-o com terrivel spasmo procurando nos olhos do seu hospede algum symptoma de demencia.
N'isto, Francisco Luiz vae direito ao medico, como que o força a fazer pé atraz de espavorido, e diz-lhe:
—Vossemecê ama muito sua mulher?
—Se amo muito minha mulher? Como a Deus, mais do que a Deus! mais do que aos meus filhos!...
Fitou-o com os olhos cheios de lagrimas o hospede, e disse-lhe:
—Não me falle por alguns minutos... não me falle... deixe-me pensar... mas o melhor é que eu me vá, e voltarei n'outro dia.
—Não... ha de explicar-me o que é isto... A sua linguagem é outra... Ha terrivel segredo aqui, ou o meu amigo enlouqueceu... Tire-me d'esta incerteza, por quem é...
Deteve-se silencioso largo espaço o hebreu. Estava aquelle afflictissimo homem perguntando á sua consciencia, se não seria mais grato a Deus e á humanidade que um peregrino vindo d'além mar não entrasse um dia aos paços de Manuel de Sousa Coutinho a dizer a D. Magdalena de Vilhena que não podia ser mulher do homem que lhe chamava esposa! Se não seria mais humano e santo que aquelle peregrino passasse por diante da casa dos felizes, e dissesse: «Deixae-os viver e morrer ditosos na vossa ignorancia! Não serei eu quem vá vestir-vos a mortalha, e dizer-vos: sepultae-vos!»