Assim pensava Francisco Luiz, e curava já de remediar o alvoroço em que pozera o seu amigo, quando este o abraçou com impeto, e lhe disse em tom violento:

—Quem é meu pae? Quem sois vós, homem! Respondei, que eu sinto o peito alanceado de mortaes agonias!

—Falle baixo, senhor Braz Luiz de Abreu—disse moderada e placidamente o hospede—Falle baixo, que está alli dentro a mãe com sete filhos.

E desapertou-se dos braços d'elle para fugir.

—Não!—exclamou o medico—não irá de minha casa, sem me dizer o que sabe do meu nascimento. Que importa que me diga que sou filho de um hebreu? que meu pae morreu queimado? que Heitor Dias era meu irmão? que o meu appellido é o de algum facinora? Diga, diga tudo, que a mim basta-me a consciencia da minha vida honrada para me acobertar dos insultos do mundo! Farto d'elles estou eu, por que me chamam engeitado! Diga-me seja o que fôr, que eu lh'o peço com as mãos erguidas! Por Deus não minta, senhor! Conheceu meu pae? conheceu minha mãe?

—Conheci.

—Jura-m'o pelos Santos Evangelhos?

—Eu não reconheço a santidade dos Evangelhos. Juro-lh'o pela honra d'este homem, d'este hebreu queimado em estatua, d'este homem sem terra nem familia, chamado Francisco Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que recebeu nos braços ha quarenta annos uma creancinha, que depois se chamou Braz Luiz de Abreu. Jura-lh'o o homem que depositou essa creancinha, quando os esbirros da inquisição o perseguiam, nos braços de Francisco de Moraes Taveira, de Villa Flor. Jura-lh'o o maior amigo de seu pae! Jura-lh'o o homem que enchugou no seu rosto as ultimas lagrimas de sua mãe...

—Mas o nome de meu pae—atalhou Braz de joelhos, com as mãos erguidas e trementes.—O nome de meu pae, senhor Francisco Luiz de Abreu.

—Dir-lh'o-hei ao ouvido—disse o hebreu, inclinando-se á orelha do medico.