Os frades entraram a tomar conta dos meninos. O prior, ao pegar das mãos d'elles, disse:
—É tempo. Vá á sua vida, senhor Braz de Abreu.
—Adeus, filhos. Abençoe-me, reverendo padre!...—disse o irmão professo da ordem terceira de S. Francisco, e saiu.
Sobre-humana coragem! Entrar na casa, onde, vinte e quatro horas antes ainda almoçado com sua mulher e filhos! Entrou. Foi ao oratorio de sua mulher. Se reparasse, poderia ainda ver signaes humidos de lagrimas no genuflexorio e na peanha do Christo de marfim. Estava orando, quando ouviu passos na escada. Levantou-se para fechar a porta, e furtar-se a dar explicação d'aquelle habito, d'aquella soledade. Não foi a tempo. Era Francisco Luiz de Abreu. Caminhou para elle com firmeza e risonho semblante:
—Meu bemfeitor, disse elle, aqui me tem. Faço grande differença do que era ha quarenta annos. Então, viu-me nas faixas infantis, e teve-me junto do seu coração. Abrace-me agora vestido na mortalha.
O hebreu apertou-o com vehemencia. As palavras não podiam sair do peito anciado e da garganta afogada por suspiros. Passado tempo, disse:
—E era preciso isto? A conformidade com a vontade de Deus exprime-se com vestir esta tunica, e apertar este cordão? Não é o homem tão grande na dôr, sem a celebrar com a magestade funebre d'estes habitos?
—O homem é um verme, e mais nada, murmurou Braz Luiz.—Se a religião me não soldar os pedaços da vida, se me ella não tirar d'este tumulo em que estou caido, que hei de eu fazer tão esmagado até á medula dos ossos?
—Pois os seus filhos? que é dos seus filhos, Braz Luiz.
—As minhas filhas assistem, as innocentinhas, á penitencia de sua mãe.