Fecharam-se as portas.

A directora do Recolhimento, silenciosa como um phantasma, conduziu D. Josepha e as cinco meninas ao longo de um pequeno corredor, com cubiculos lateraes, e mal alumiados da luz do dia ainda froixa. No extremo do corredor abriu-se a portinha de uma cella espaçosa.

—Aqui está, senhora—disse a directora, e ausentou-se.

As meninas romperam em grande chôro, assim que a livida directora saíu; logo, porém, lhe assomou a mulher de macerado aspecto, no limiar da porta, e disse:

—Aqui n'esta casa são permittidos os prantos da penitencia, e só esses, senhoras!

Retrocedeu, a tempo que D. Josepha se abraçava de um amplexo em todas as cinco filhas, e lhes dizia:

—Choremos baixinho.

Meia hora depois d'este lance, os dois meninos de Braz Luiz de Abreu, um de dez, outro de nove annos, eram conduzidos ao convento de Santo Antonio, onde encontraram seu pae vestido com o habito de irmão professo da ordem terceira. Estacaram defronte d'elle n'um glacial spasmo. O medico tomou-os ambos, com as faces aconchegadas um do outro, e disse-lhes:

—Não haveis de chorar, não, meninos? Ficareis aqui por algum tempo. Aqui vos deixo com amigos e mestres. Fazei muito por aproveitar o tempo, e trabalhae por ganhar o coração d'estes santos homens.

Nem uma lagrima exsudou aos olhos d'aquelle pae! O fogo da divina graça seccara-lhe as fontes da alma. Era já o ser humano mutilado dos orgãos da vida de relação. Era o homem sobre-natural, aquella coisa inexprimivel de que se formam o anjo ou o demonio, as visões beatificas ou o revolutear escandecente da legião.