—Estão dadas ordens para serdes recebidas no conservatorio de S. Bernardino, Recolhimento de Terceiras de S. Francisco.

—E eu não hei de vêr mais...—exclamou ella, e retraiu-se como aterrada do delicto de tal pergunta.

—Vinde, senhora e meninas. Emquanto a vós, moços, esperae que vos digam o vosso destino.

Era na madrugada de 25 de março de 1732.

Regorgeavam os festeiros da primavera, os passarinhos emboscados no arvoredo dos quintaes. A geada branquejava as ruas, e do lado da rua assoprava frigidissimo vento. As meninas aconchegavam das faces escarlates os capuzes das mantilhas. A mãe ia aquecida no banho ardente das lagrimas.

Os antoninos caminhavam mesuradamente á beira d'ellas, com as mãos enfiadas nas mangas dos habitos. O prior ia ciciando quaesquer palavras, que deviam de ser as suas orações da manhã, ou rogava ao Senhor dos afflictos que esteiasse o animo d'aquella mulher singularmente desgraçada.

Abriu-se a portaria do conservatorio de S. Bernardino. Os frades ficaram áquem da porta, que rouquejara nos gonzos com o quer que fosse de muitos gemidos unisonos de fundissimos carceres, soados por abobadas subterraneas.

D. Josepha quando encarou no interior do recinto lobrego da entrada, deixou-se rasgar desde o intimo d'alma por um grito, mais desesperado, mais blasphemo que invocativo da divina graça para tão acerbo calix.

—Haja-se com paciencia, senhora!—disse o prior—Olhe que desde este momento o Altissimo a está vendo e sondando-lhe o coração. A ignorancia não podia ser culpada até hoje; mas d'hora em diante, a reluctancia com os deveres que lhe impõe a justiça do céo e a justiça da terra é crime mais que muitissimo grande... Entendeu-me, senhora?

—Entendi, senhor padre-mestre prior—respondeu a confessada do prelado dos antoninos.