—Senhor Abreu, não se arrependa; foi Deus que o enviou. Não chore, que as minhas lagrimas ámanhã estão enchutas: ha de seccar-m'as o fogo sagrado da minha religião. Tenho Jesus Christo na minha alma. Agora comprehendo que milagres se operam nas maiores angustias do homem. Os meus filhinhos serão sempre os bens que Deus nosso Senhor me confiou. Minha irmã está debaixo da mesma divina mão. Ha de resignar-se, ha de santifical-a a saudade, incenso de lagrimas que o Senhor lhe ha de aceitar e retribuir em consolações...
Susteve-se n'esta exclamação arrobada e ungida de santa resignação. Momentos passaram silenciosos... Depois, levando freneticas as mãos á cabeça, exclamou:
—Mas eu hei de separar-me para sempre de minha esposa... do anjo bemdito de toda a minha vida!...
E atirou-se ao peito soluçante do homem que, quarenta annos antes, o aquecera ao calor de suas faces, creança de vinte e cinco dias.
XV
Angustias que existiram
Por volta das dez horas d'aquella noite Braz Luiz de Abreu saíu de casa do vigario capitular, e recolheu-se ao convento de frades antoninos, convisinho da egreja da ordem terceira de S. Francisco, na qual o familiar do santo officio era irmão professo. Que noite aquella, que lagrimas choradas aos pés da cruz, e no seio do venerando prior da casa hospitaleira do maior infeliz que alli se albergára!
Ao aclarar-se a manhã, o prior e dois frades de Santo Antonio, varões de grandes annos e virtudes, chegaram á porta de D. Josepha de Abreu. Abriu-se-lhes a casa, em cujo recesso tinha ido um chorar soluçante, e passado horas infernadas, sem mais desafogo que o atirarem-se por terra aquella mulher e sete filhos, ignorantes da angustia de sua mãe, pedindo misericordia, diante de um santuario.
De joelhos se quedaram, quando os tres frades, sublimes de religioso terror, appareceram no limiar da casa da oração.
—Irmã, disse o prior, erguei-vos e mais as vossas cinco filhas, e vinde.
—Para onde, senhor?—murmurou ella com os olhos no pavimento e as mãos sobre o seio.