—Conjecturava eu, senhor Braz Luiz, que um homem de sua indole e saber, vestido com as insignias de uma religião qualquer, e mormente da christã, se empenharia em lavar-lhe com lagrimas as nodoas de sangue, e no amaciar-lhe as cruezas que ella trouxe das tradições pagãs. O homem de grande entendimento e muitas luzes devia ser lustre e honra de qualquer religião que elle assentasse de converter em policiamento e bem-fazer da humanidade. Não lhe perguntei ainda, meu amigo, se applaudia o proceder da christandade portugueza contra os paes de Antonio de Sá, contra Maria Cabral, contra Heitor Dias da Paz. Pergunto-lh'o agora, na occasião em que vossemecê manda um filho alistar-se nos aprendizes do santo officio, e estudar as physionomias das antigas rezes do açougue dominicano penduradas na galilé da egreja de S. Domingos. Bem póde ser que lá veja retratos de seus avós.
—Basta! que me está mortificando, senhor!—atalhou o padre.—Sou um desgraçado, á volta de quem se assanham todas as tentações! Quem vem contender em pontos de religião com um homem tão quebrado de espiritos? Oh! deixem-me como a um leproso, abandonado de Deus e dos homens...
—Abandonado de Deus! como assim?—accudiu o israelita.—Pois as tres divindades christãs, o Padre, o Filho e o Espirito Santo assim abandonam quem tanto lhes sacrifica! Onde está a compensação das suas afflicções, meu amigo? Que bem aventuranças infinitas são bastantes a galardoar uma só das suas torturadas noites? Por minha fé! Consterna ver o desamparo em que o Moloch d'estas voluntarias hostias deixa affogar-se em lagrimas e derreter-se ao fogo da desesperação um homem que tinha direito a receber consolações analogas á devoção com que se deixa esmagar na carne e no espirito!... Ah! eu cuidei que, na minha retirada de Portugal, o deixaria enlevado na beatifica visão e antegosto da eterna e perennal mão direita do Deus-Padre! E a minha consciencia sabe que eu muitas vezes pensei em me converter ao christianismo, se Braz Luiz de Abreu estivesse, a esta hora, conformado e alegre sobre o peso da sua cruz!...
—É que eu sou lodo... atalhou o padre.
—É que eu não vi ainda bem remunerada a renunciação dos direitos do homem, em hecatomba de uma equidade convencional, chamada a justiça das religiões. São todas muito artificiaes para que alguma d'ellas possa ser verdadeira. As menos sobre-humanas são as mais equitativas; e estas mesmas estão manchadas pela miseria do homem, que não comprehende a virtude aconselhada pela razão; carece de a ouvir trovejada no Sinay, legislada pelo alfange mahometano, ou introduzida no cerebro das nações selvagens com o gume da espada dos Cabraes e dos Pizarros. Pois está Deus n'estas carniçarias? O creador das florestas e dos mares, do oução e do elefante, se quizesse revelar-se mais sensivelmente ao homem, careceria de morrer n'uma cruz ignominiosa, ou permittiria que aos pobres cegos, que o não sabem ver, lhes queimassem os olhos nas lavaredas do santo officio?!
—Jesus, soccorrei-me! exclamou o padre, tapando com as mãos a fronte, em que as palavras d'aquelle homem coavam luz de infernal claridade.
Depois murmurou palavras inaudiveis que deviam ser orações efficazes contra a tentação da heresia, da philosophia, da razão indocil, do demonio, que é tudo um.
O hebreu era pertinaz, porque o estimulo, a razão nua, sem minima compostura de fé, lhe espicaçava a consciencia. O homem vinha dos focos da heresia. Comprehendêra a loucura do hebraismo e a loucura dos heresiarcas. Reformara-se na philosophia de Spinosa, e facilmente derivara do pantheismo á completa abstinencia de deuses, coisas desnecessarias para explicar a ordem do universo, e inintelligiveis para as fazer presidir á creação. A causa das causas parecia-lhe sempre effeito dos effeitos. O atheismo, se o não consolava, tambem lhe não mettia em trabalhos as molas da imaginação.
As expansivas demonstrações de sua incredulidade eram todavia inefficazes para apagarem a luz do calvario no coração do padre. O dique do terror de Deus represava as torrentes de sabedoria rebelde com que o hebreu pretendia levar de rojo o amigo, cuja victoria estaria indecisa; se o christão convicto aceitasse o cartel. Não. Braz Luiz vencia com o silencio. O argumento triumphal é o calar-se aquelle, cujo coração bafejou o Senhor.
Não obstante, as asperezas da vida, os jejuns, as penitencias, as orações mentaes e exercicios fatigantes de piedade foram diminuindo de dia para dia. No fim de tres mezes, o padre fallava ainda tres horas á milagrosa imagem de S. Francisco, e conversava seis horas com Francisco Luiz de Abreu.