Estava, pois, reduzido á piedade rasoavel. Não mortificava a carne para manter o espirito na energia que se lhe requer em meditação das coisas divinas. Tinha horas regulares de oração, de alimento, de visitar os seus enfermos, e de procurar no locutorio de S. Bernardino as quatro freiras.

Foi para Lisboa com o hebreu e com os filhos. Renovou a consulta sobre o destino d'elles. Permaneciam constantes na sua resolução. Um entrou no noviciado da ordem dominicana em Bemfica; e outro no collegio de Santo Antão.

O padre Braz foi beijar a mão de el-rei, que se compungiu da extemporanea velhice do celebre Olho de Vidro. Ouviu-lhe a historia pathetica da morte de soror Josepha e da filha, saudosa de sua mãe, e o definhar-se das quatro meninas para quem a vida claustral fôra sempre incessante martyrio e desesperação de que a misericordia divina talvez pedisse contas a elle pae. Observou-lhe D. João V que levasse para sua companhia as quatro meninas.

—São freiras, são professas, real senhor!... murmurou o padre.

El-rei mandou-o voltar no dia seguinte, e ordenou que lhe entregassem provisão regia e breve do nuncio para que as quatro freiras de S. Bernardino vivessem por tempo illimitado na companhia de seu pae.

Voltou o padre a Aveiro, e Francisco Luiz de Abreu acompanhou-o.

N'este homem andava encavalgado o Lucifer da mais desenfreada philosophia que viu aquelle seculo. O pensamento que o esporeava era generoso; mas no inferno iria um dia de festa se elle vingasse a idéa execravel. Venceram os anjos custodios, que faziam guarda ao espirito do padre e das quatro filhas, promettidas esposas de quatro serafins que as esperavam, posto que nem todas correspondessem ao convite amoroso dos serafins.

Queria Francisco Luiz de Abreu restituir a felicidade áquellas meninas, a felicidade terreal, mentira em que o hebreu ainda acreditava. Preparava o animo do filho de Antonio de Sá, inoculando-lhe a peçonha da duvida no dogma, e pelo conseguinte na moral. Discutia os chamados sacramentos da egreja. Dizia que o sacerdocio era a mais convencional e estupida das instituições humanas, com grave ultrage de Deus, chamado a sanccional-a, se Deus por acaso podesse existir e ser ultrajado por affrontas do homem, chamado irrisoriamente o rei da creação, á mingua de besta-fera que se proclame com eguaes direitos á mesma realeza. Dizia que esta bestial instituição cedia a primasia a outra, que era a da profissão da mulher; e que de estupida passava a ferocissima quando a professa era violentada a jurar a perdição das suas alegrias de mocidade, e das suas esperanças de familia nas tristezas da velhice.

Amartelladas por largo tempo estas e similhantes idéas sobremodo impias, o hebreu puzera a pontaria em tirar de Portugal o padre e as freiras, leval-os onde rasgassem os habitos, e se vissem de repente restituidos á simpleza de creaturas formadas á imagem e similhança do Creador, o qual, a ter existido, formára certamente homens e não padres, mulheres e não freiras: gente, no dizer de Moysés, apta e escorreita para formar individuos, aldeias, cidades, reinos, mundos.

Ouviu o padre as theses do seu amigo, defendidas por longo tempo com erudição digna de melhor serventia. Prodigioso poder da fé, quanto eu te admiro e venero! O padre resistiu nervosamente á seducção, e por pouco, no calor da refesta, não apresentou uma idéa que destruisse os preconceitos do judeu luciferino. Prodigioso poder da fé! exclamava tambem Francisco Luiz, quando, inventariando os argumentos do seu amigo, não topava um que merecesse redarguição grave. E perguntava elle a si mesmo como era que aquelle homem tão embotado em agudezas de dialectica pudera escrever as «Aguias que voavam sobre a lua, e o sol nascido no occidente e posto ao nascer do sol!»