Desistiu: mas já lhe foi grandissimo contentamento ver á beira de seu pae as quatro meninas, quatro exhumadas da lobrega crypta do convento, onde deixaram sem lagrimas as grammas que rastejavam na claustra sobre a campa de sua mãe.

Dizia elle, todavia, ao pae:

—Crê que as caras marmóreas d'estas meninas tornem a reflorir?

—Espero que sim.

—Nunca mais. Estão mortas. Se as quer vivas, rasgue-lhes a mortalha, Braz Luiz!—exclamou elle abraçando-as todas contra o seio.—Dê-me estas meninas, deixe-me salval-as, deixe-me fugir com ellas para o ar abençoado da liberdade! Eu prometto aviventar-lhes o coração, e depois estão salvas. Dê-m'as que eu ainda, sou bastante rico para deixal-as ricas. E, se eu fosse pobre, dar-lhe-ia a cada uma um amor para o coração resuscitado, um esteio para a alma, um companheiro para toda a vida!

O padre ergueu-se de repellão, travou das filhas, arrancando-as aos braços do hebreu, e exclamou:

—Que maldição traz comsigo este homem!... Quer perder-me as minhas filhas!... Ha infernal predestinação na sua mensagem ao seio da minha familia, homem da horrivel fatalidade!

XIX
O velho da ermida

Em uma aldeia, chamada Verdimilho, a uma legua d'Aveiro, vivia em 1738 um ancião, reputado justo porque á volta da sua casa, colmada e desguarnecida da mais trivial mediania, se ajuntavam os pobres da freguezia, em dias determinados, e recebiam esmolas que lhes bastavam á alimentação parca da semana. Chamavam ao incognito o «velho da ermida» porque, ao lado da choupana d'elle, estava uma capella. Os pobres, favorecidos d'este homem, paravam ao cair da tarde nas visinhanças da ermida, para o verem sentado no tezo de um oiteirinho, com os olhos enlevados no transmontar do sol; e, se o viam passar a mão por elles como quem enchuga lagrimas, diziam entre si:

«Um homem que dá tanto aos pobres, e chora!...»