O barão retirou, enxugando as lagrimas. Entrou furtivamente em casa, e escreveu uma carta. Sahiu com o preto, e montou a cavallo á porta de um alquilador.
A carta, que escrevera, era sobrescriptada á baroneza; da qual carta se dá o texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correcção ortographica:
«Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no Porto!!!! Vou por esses mundos de Christo penar o meu crime, até que o remorso dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica n'esta casa, que é tua, minha amada Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde enterrar os meus ossos!!! Quando souberes o meu triste fim então perdoarás a teu infeliz e desgraçado marido!! Fui já pedir perdão ao Antonio de Almeida, e oxalá que eu morresse ao pé d'elle. Pela tua honra e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e carinho. Faz com que ella me perdôe o mal que lhe fiz. Não tive animo de ir onde a ella, pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquelle honrado homem, que Deus permitta não morra. Adeus Ludovina, desgraçada Ludovina!!! para sempre, adeus! Não me tenhas odio; tem antes compaixão de teu marido, que te escreveu esta com a cara coberta de lagrimas e o coração acabrunhado de remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!»{142}
Afóra a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez signaes symbolicos da dôr indizivel do barão de Celorico de Basto, o que se nos depara n'essa carta é a simplicidade, a mudez, a phrase chan de uma verdadeira angustia. Em lance identico um marido letrado, e concedo até que romancista, não escreveria cousa mais pathetica e pungitiva.
Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que authomaticamente se deixava vestir para ser transportada n'uma cadeirinha, nem ella sabia para onde.
Melchior Pimenta trouxera de fóra a noticia do perigoso ferimento de Antonio de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova, porque não era então maré de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no caso alguns minutos.
Uma idéa, entre muitas idéas (se o leitor concede que Melchior tivesse muitas idéas) o incommodava. Seria Antonio de Almeida amante de sua filha, e o barão, por consequencia, quem lhe dera o tiro? Era esta a conjectura que o preoccupava, quando Ludovina lhe disse que não podia fazer-se a mudança n'aquelle dia porque a receava perigosa para sua mãe.
«Vem cá, Ludovina—disse o sr. Pimenta, franzindo a testa sobrecarregada de cuidados—fallemos de espaço, e desembrulha-me este novello. O barão disse-me, ha pouco, que dera esta noite um tiro n'um homem que era o amante de tua mãe. Acabo de saber que Antonio de Almeida está ferido. Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente. Lembra-me{143} o que teu marido me disse... Quero explicações d'este mysterio.
—São muito dolorosas para mim as explicações, meu pae.
«Como dolorosas?!