—Isso é improprio da sua nobre alma, meu pae. A culpa é minha só. Amei desde creança Antonio de Almeida, era amiga d'elle até o julgar superior a todos os{144} homens. Pedi-lhe a felicidade do coração, que só elle podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. Fui eu que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-hei mais que, na posição em que estou, considero-me responsavel das minhas acções más perante Deus e meu marido. O pae perdeu o direito de me injuriar na desgraça que lhe devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei de que modo, convencer-se o barão de que a amante de Antonio de Almeida era ella. Aqui tem a explicação das palavras que meu marido lhe disse, e não poude sustentar na minha presença. Minha pobre mãe, depois de victimar a sua honra á minha salvação, succumbiu á vergonha de si, e á dôr, talvez, de me ver indigna d'ella. Basta de explicações, meu pae. Estas palavras tem-me custado annos de vida. Se a minha deshonra reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer perdoar, amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de Antonio de Almeida. Mereço isto á sua compaixão?
«Não falarei mais n'esse homem por minha honra propria.
—Assim o deve á sua dignidade.
Ludovina foi chamada com urgencia ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e gestos de quem delira.
«Onde quer ir, minha mãe?
—Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar...{145}
«Não ha de sair d'aqui; supplico-lhe que não saia, minha mãe.
—Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa...
Ludovina fez sair a creada, que testemunhava este dialogo.
«Não quer ser mãe nem esposa?