Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A trezentos passos d'ahi, morava Antonio de Almeida. Velando o rosto com um véo negro impenetravel á vista, a baroneza de Celorico, sósinha, subiu as escadas do amante de sua mãe.

Descia um medico ao qual ella perguntou o estado do enfermo. Respondeu-lhe que havia esperanças de{147} salva'-lo. A noticia feliz alvoroçou-a. Receberam-n'a as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha prova de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quasi desfez o apparelho do curativo, e chamou-a com ancia.

Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira ás amigas. Almeida apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lagrimas, e murmurou balbuciante:

«É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do meu coração.

A baroneza ficou muda e convulsa. Filha do meu coração foram palavras que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de repente, se mudára em sensação de intima doçura. Passados minutos de mudo anceio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse:

—A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lh'a entreguei, lia-a eu, e occultei-lh'a para a não matar.

—O barão denunciou tudo?

—Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ella o estima tanto como eu. É necessario que o nosso amigo concorra quanto puder para lhe dar allivio. Tem esperanças, não tem?

—Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal. Já não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer...

—Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não fale em mim, não diga que eu vim cá.{148}