«Não tem geito nenhum!—accrescentou o austero pae.—É preciso saber-se para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdão, perdão, antes que a sociedade saiba que elle te abandonou.
—Irei, meu pae.{157}
«Irás; mas entretanto sáes de carruagem, e não dizes onde vaes... Onde foste tu, diz?
Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu.
«Vês, Angelica?—proseguiu com virulencia Melchior—Não respondeu; já sabes d'onde ella vem... Já se viu no mundo um descaramento assim?
—Nem mais uma palavra a minha filha!—exclamou com impetuosa arrogancia D. Angelica—Nem mais uma palavra, porque se não, Melchior...
«Se não, o que?—interrompeu elle.
—Minha mãe, pelo seu amor lhe peço...—murmurou a baroneza, apertando-a ao seio, como se quizesse comprimir-lhe as palavras no coração.
Pimenta sahiu, como entrára, com as mãos agarradas á cabeça. D. Angelica, beijando soffrega a face da filha, dizia, soluçando:
«Ao que eu te expuz, minha querida victima! ao que tu quizeste sujeitar-te, Ludovina! Pesa-me mais a tua innocencia diffamada que o meu proprio descredito. Não, filha, isto não póde continuar assim. Deixa-me ser virtuosa no crime, deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura. Esta expiação é a maior de todas, Ludovina. O meu coração está cheio de fel. Tu queres salvar tua mãe e matas-me, anjo do meu coração. É-me muito mais dolorosa a vergonha que tenho de ti, que da sociedade. Que o mundo todo me culpe, mas perdôa-me tu, filha!