—Eu, mãe.
«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha?{159} Que inspiração tiveste de o visitar? O coração impellia-te? era o coração? diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia divina em tua nobre alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria completa! Foi só por caridade, por compaixão, que o visitaste?
—Foi por amor de minha mãe que o visitei.
«E elle? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A reserva já agora é impossivel entre nós, filha. Que te disse? responde...
—Nada, minha mãe...—balbuciou a baroneza.
«Nada?
—Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé de minha mãe... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons conselhos que me deu sempre, das consolações affectuosas com que alliviava as minhas maguas, desde que infelizmente casei. Tanto como isto era sobejo estimulo á minha pena. E, depois, vêr quanto a mãe soffria... porque o prezava tanto como eu o estimava...
«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras terriveis essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes tu dizer-me por que meio has de restaurar o teu credito perante teu marido... Não me atrevo a aconselhar-te, Ludovina, por{160} que ha em ti fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que quizeres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de ti como do meu anjo da guarda.
—Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, supplico-lhe que me advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz que estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege a innocencia e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel comnosco; seja, muito embora; nós supportaremos as cruezas do mundo, sem nos curvarmos aos seus juizos. Minha mãe ha de ajudar-me a vencer os dissabores passageiros da maledicencia, pensando em me fazer cada vez mais digna do seu amor. No tocante ao que ha de vir melhorar a nossa sorte, espero que virá, mas os meios não os sei. Hei de a este respeito consultar o nosso amigo Antonio de Almeida.{161}