«A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve, queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me.
«Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer,{170} se ainda posso deixar-te de mim uma lembrança triste, meu amigo!
«Este teu silencio dóe-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado na sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não pódes vir a esta casa, á casa de minha filha; mas que não faria eu para te encontrar, Almeida?
«Pois é possivel este desfecho de uma paixão que tantas lagrimas me ha custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os tormentos e os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim ser despedida da tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou culpada no teu infortunio?
«Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos inventaria o inferno para me fazer deixar-te!
«Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos—se tinha!... vós o sabeis, Deus meu!—e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me, Almeida, sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma!
«Conspirassem todas as forças d'este mundo contra mim, fosse eu chamada para dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho, offerecendo o rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era amor, amor insensato de mulher que faz da sua deshonra um heroismo!
«E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas os meus cabellos se fizeram{171} brancos? Assusta-te a presumpção de que a minha face envelheceu? Não pódes já ver em mim signaes desvanecidos da Angelica dos dezoito annos? Tens razão, Almeida; estou velha, mas o coração, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha vaidade de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte e dois annos, está hoje como não estava quando te assenhoreaste d'elle, aperfeiçoou-se em contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de amor que o ha-de matar, porque já não tenho peito que possa conter tanto fel!
«Não estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. Não imagines o que fui, nem repares no que sou. Lembra-te só do perdido amor que te dei, mova-te só a lembrança do muito que a minha alma te quiz; acceita-me na velhice uma amizade, que te não será pesada agora, nem embaraçosa para tua felicidade. Diz-me só que o teu silencio não é desprezo nem esquecimento. Poupa-me á horrivel morte que me faz tremer. Se tudo perdi, resta-me o recurso da tua commiseração. Imploro-a de joelhos. Amor, esse sei eu que se não supplica; mas engana-me, Almeida, engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicação de tantos annos não póde acabar com o desprezo.»
Ingrato homem! é a exclamação natural com que as leitoras sensiveis exprimem o seu dó.