Pois decidem de leve, e accusam com a costumada injustiça. Antonio de Almeida é tão digno de lastima como Angelica. Ora, vejam a seguinte carta que Ludovina{172} lhe escreveu, antes da sua partida para Celorico:

«Lembra-me que, sendo eu creancinha, sentava-me no collo do meu amigo, anediava-lhe os cabellos, fazia-lhe muitas meiguices de coração e de astucia, para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer cousa que o meu amiguinho me não sabia negar.

«A creança fez-se mulher, já não sabe ameigar antes de pedir; mas essa falta vem de eu me esquecer das maviosas e candidas palavras que sabia então. O coração é bom como era, a affeição maior e mais entranhada, a confiança de ser bem recebida em meus rogos é mais solida: o que me falta, como já disse, é o tom carinhoso, a meiguice seductora da innocencia.

«Não importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor immenso; empenho para alcança'-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as recordações doces que o trazem desde o berço de Ludovina até estes dias tristes que vamos vivendo.

«Peço-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as forças que o coração não tiver para cumprir uma supplica que vou fazer-lhe em poucas palavras.

«Seja mais forte que a minha pobre mãe. Se vir que ella cáe, sustente-a. Trabalhe comigo para que o segredo d'aquella noite horrivel se não descubra á curiosidade infamadora do publico. Não peço que lhe dê consolações frivolas. Lições de virtude, suspeito que não aproveitam a minha mãe, sendo dadas pelo meu amigo. A razão está muito longe do coração. Penso que{173} minha mãe tomaria como esquecimento, ou desamparo os seus conselhos.

«Conhece bem a situação de minha mãe, sr. Almeida? Siga o que a sua honra lhe inspirar. Veja que novas desgraças podem seguir-se. Avalie o que eu tenho feito por ella, e medite na extensão da minha dôr se tudo o que fiz e faço fôr perdido.

«Não sei dizer o que me está na alma. Pode ser que eu dissesse o mais confusamente que é possivel o meu pensamento. Lá está o seu nobre espirito para aclarar a obscuridade d'essas palavras.

«É necessario grande animo para me obedecer? Soffra, meu amigo, soffra comigo. Olhe que me ha de abençoar, e gloriar-se do seu sacrificio.

«Eu parto hoje para Celorico. Meu marido é digno de pena. Vou ajuda'-lo a combater os remorsos que o tem levado ao infortunio da demencia.