«Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a paciencia, e para o heroismo. Adeus. Sua amiga Ludovina

Esta carta explica o silencio de Antonio de Almeida. Comprehendeu-a com o juizo prudencial dos quarenta annos. Meditou-a com tanto respeito como admiração. Recolheu as palavras d'ella com religiosa austeridade, e violentou a alma a aceitar o juramento da observancia, com pena de deshonra e villania, se rescindisse alguma vez a alliança que fizera com a que elle, no intimo de seu coração, chamava filha.

Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa{174} escola, não costumam assim accommodar-se, e obedecer aos ditames da razão. Estas cousas, como ahi se contam, são naturaes e observadas, e sentidas; por isso mesmo desagradaveis, em novella, onde o bom é o inverosimil, e o que mais captiva é o que mais repelle o coração bem formado.

Estes amores de Antonio de Almeida e D. Angelica, tractados por imaginação de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a ve'-lo a elle, pelo prisma phantastico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha ainda na aberta chaga, um par de pistolas de doze tiros, nas algibeiras, entrar, entrar de cabellos hirtos e rosto livido, no quarto de Angelica, e semi-desfallecido nos braços d'ella, dar largas á parlenda, e vociferar, por entre amorosas phrases, esconjuros odientos contra o genero humano, contra a instituição do matrimonio, e contra os deveres conjugaes! Agora se me afigura vêr Melchior Pimenta assumar no limiar da porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Ha gritos, injurias, investidas, até que alfim, levados á puridade para um recanto da casa, ahi combinam um duello de morte, no dia seguinte. Medonha figuração me avulta agora na imaginação de emprestimo Melchior Pimenta, após a detonação de dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mão ao seio que espirra golfos de sangue, põe os olhos annuviados no céo impassivel, que contempla o quadro feio, e expede o derradeiro halito, nos braços dos padrinhos.

Quantos capitulos desgrenhados cuida o leitor que{175} dava esta parvoiçada imaginativa? Dois volumes em oitavo com seiscentas paginas, afóra o subsidio das reticencias, que, na minha opinião d'outro tempo, foram inventadas para definir a mulher; e na minha opinião d'agora, inventou-as o primeiro litteratico ôco de idéas.

Ora, que fiquem com Deus os mestres que tão vistosos de zarandalhas nos embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos entrar na ultima jornada d'esta historia.{176}
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CONCLUSÃO

O barão de Celorico parecia uma creança atemorisada ao pé de Ludovina. Se a perdia um momento, davam os espectros com elle, e lá ia o pobre homem gritando, até se acocorar ao pé d'ella, escondendo-se com a roda do vestido.

Bastava a presença de Ludovina para socegar-lhe os accessos de loucura, manifestados em exclamações desatadas, quasi sempre seguidas da apparição do charuto cuja historia elle contava a sua mulher, pelo theor ridiculo que já lhe ouvimos.

Acudia Ludovina com o inutil remedio da razão, despersuadindo-o da morte de Almeida. O barão abria a bocca attenciosa, parecia dar mostras de entender e acreditar; o desfecho, porém, do silencio sereno com que a escutava, era ver um novo avejão, que o vinha aterrar por cima do hombro da mulher.