Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam á baroneza o emprego dos meios violentos para o curarem. A grande idéa therapeutica era o caustico e a{178} sangria. A contristada senhora annuiu. Por sua parte, fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia á mulher que não o deixasse morrer ás mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe roubarem a esposa.
Resolveram empregar a força. Dois robustos camponios tomaram a peito a ardua empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propicio. O officioso abbade da freguezia encarregára-se de cingir-lhe um lenço sobre os olhos. O juiz ordinario pegava na bacia. Varios primos formavam o corpo de reserva, e a baroneza fugira para não presenciar os extrebuxamentos do infeliz.
—Agora!—disse o facultativo.
Á palavra agora o barão estava entalado entre quatro braços cabelludos, e o abbade, á rectaguarda do preso, lançava o lenço com mão certeira. O barão arquejava, sem comtudo barafustar entre os membrudos braços. Tudo promettia um propicio resultado, quando o antigo hercules da rua dos Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros simultaneos nas ventas vizinhas. Umas eram as do abbade, o proprietario infeliz das outras ventas era o juiz ordinario. Investiram de novo contra elle os athletas: cara lhes foi a façanha, porque apararam um choveiro de sôcos tremebundos, indo um d'elles por engano, estoirar na lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abbade, o juiz, e os homens de péga, parte dos primos, e o cirurgião coaram-se{179} cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a fuga atropellada.
N'esse conflicto appareceu Ludovina. O doudo baixou as armas contundentes, os braços iteriçados que vibravam o ar como duas mangueiras de malho. Correu para ella, como a pedir-lhe soccorro, ouviu-lhe as reprehensões com o tremor do medo, e cahiu prostrado da lucta sobre uma cadeira, apegando-se á saia da baroneza.
Aqui está o viver da deploravel senhora, no espaço de um mez, em Celorico de Basto. Aquella vida, e as dôres profundas de outras causas, eram o preço por que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da sociedade, que, ainda assim, a invejava.
O barão desmedrára a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o arcabouço proeminente de angulos osseos. A panda physionomia, tão rubida de nediez chorumenta, chupára-se, entanguira-se, cousa de fazer lastima. Diziam todos que a baroneza, um mez depois, seria uma formosa e rica viuva. Já dois dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e porfiavam a conquista. As damas, com palavras francamente grosseiras, iam dando os parabens á baroneza. As que ousaram feri'-la assim, ouviram resposta que lhes fechou para sempre as portas de sua casa.
A idéa que dominava o barão era a morte de Antonio de Almeida. Ludovina perdera a esperança de afugentar o phantasma, empregando razões tão convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas{180} d'elle, que o barão ouvia ler com o sorriso do idiotismo, percursor de nova berraria.
A ultima que Ludovina lera, quasi certa de que seu marido não a percebia, foi a seguinte:
«Minha amiga. É já bastante o numero dos infelizes que põem os olhos lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os desamparados da esperança e da alegria. D'aqui até ao fim da vida é soffrer, e chorar de modo que o mundo nos não veja as lagrimas: é preciso que o coração as verta e as absorva; é necessario suffocar os gemidos, e entreter as dôres, cavando a sepultura.