«Curta será a minha existencia. Quarenta e quatro annos, e a saude alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agouro, não é? Mas, para Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte annos, minha amiga; vejo-a na aresta do precipicio, a contemplar-lhe a profundeza, e ahi se lhe hão de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre anjo! quem lhe vaticinaria ha dez annos este infortunio?
«A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a religião dos desgraçados, ensina que o premio das grandes virtudes não póde ser dado n'este mundo porque não ha mãos puras que possam tecer a corôa do martyrio. Espere, Ludovina, com os olhos no céo, e a mão sobre o seio para esmagar os impetos do coração, que tem accessos de raiva blasfema.
«Obedeci-lhe, Ludovina.
«Comprimi, abafei, matei a essencia da minha vida,{181} o sentir que m'a fazia preciosa. Sou para sua mãe uma memoria. D'ella tenho só o nome escripto no coração, como o epitaphio do affecto que ali morreu recalcado.
«Deu-me um calix, Ludovina. Bebi-o de um trago. Se tem outro, offereça-m'o; toma'-lo-hei de joelhos.
«Pergunta-me qual é o meu viver?
«É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação afflictiva me embaça o animo. Em redor, todos os meus horisontes são tenebrosos. A mesma sepultura perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que é o porto seguro de todos os naufragos d'este horroroso pego.
«Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha imaginação cançada de soffrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos, sombrios, com os olhos cerrados, travando-se as mãos com a gelida immobilidade de duas estatuas. Parou a vida externa n'estes dois entes. Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior parte do coração; o remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e á morte. Ao pé d'elles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado n'ella, alimenta ahi a alampada da esperança.
«Adeus, minha santa amiga.»
Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor não traduzisse a singelo o que ahi se esconde no figurado da linguagem. A alliança de Antonio de Almeida e Ludovina, sobre um contracto de honra tão melindrosa, não podia ser tractada com mais recato e pejo, de ambas as partes. Entende-se o melancolico{182} debuxo que attribulava o espirito de Almeida. Angelica era a companheira d'esse homem que lhe dava as mãos á borda da sepultura. A alampada da esperança alimentada pelo anjo da consolação, era o fito da morte d'onde ambos não desfitavam os olhos, como a naufragos succede, se no horisonte se lhes recorta um rochedo salvador.