Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lagrimas essa carta lhe desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de saudade. Pediu-lhe que fosse alliviar-lhe o peso da cruz á qual já não bastavam seus hombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do barão que noite e dia bramava contra os espectros, e já dava aos facultativos receio de morrer desvariado, a mais acerba de todas as mortes.

D. Angelica, fechada em seu quarto, realisava a imagem que a phantasia de Almeida adivinhára. Sombria, inerte, reconcentrada, impassivel a cuidados, carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que estava esperando a morte, e repellia com desabrido enfado os lenitivos de quem quer que fosse.

Nunca mais escrevera a Almeida, e á filha eram mais as lagrimas que as lettras. Não era a sua uma d'essas dôres que desabafam. Sentia-se tomada de vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com Ludovina. Sentia-se ferida de aborrecimento, se não odio, quando o marido, mais simulado que dorido, lhe repetia as consolações frivolas de quem não comparte as penas.{183}

Á saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angelica respondera que já não tinha vigor que a levantasse do seu leito. Supplicava a Ludovina que lhe perdoasse a ella como causa dos seus tormentos, e lhe acceitasse como reparo do seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe estavam desfazendo o coração fibra por fibra.

No entanto, disseram os medicos á baroneza que a apparição d'esse homem, que o barão julgava sua victima, poderia recobrar-lhe a razão, desopprimindo-a de phantasmas e remorsos, causas principaes da demencia.

Ludovina communicou a Almeida as esperanças dos medicos, sem pedir-lhe o sacrificio de se verem.

Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baroneza Melchior Pimenta.

Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pae o sobresalto em que a puzera a apparição do amante.

Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida, exprobrando-lhe a pertinacia da infamia, e ameaçando-o com a morte, se elle não sahisse immediatamente d'aquella casa.

Ludovina cobrando forças, disse que só ella tinha direito de expulsar alguem d'aquella casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando injurias contra a filha, e provocações ao hospede silencioso. E saíu escandecido de raiva. Almeida quiz segui'-lo, com sereno gesto, sem assomos de colera, nem proposito de vingança. Impediu-o Ludovina com lagrimas e gemidos que irritavam{184} as iras paternas. Bem se via que não estava ali um pae; e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta.