Este conflicto atalhou-o o barão. Seguiu-se uma scena de effeito dramatico. O barão recuava diante de Almeida que lhe extendia a mão. Ludovina segurava o marido, pedindo-lhe que acceitasse a reconciliação que Almeida lhe offerecia. Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua estima, e o esquecimento da passada offensa. O barão, ora espavorido, ora risonho, alternava os olhos entre Almeida e Ludovina.

O leitor já sabe como no theatro se recupera o juizo. Se é mulher a douda, rigorosamente desgrenhada esfrega os olhos, atira com as madeixas para traz, e dá fricções seccas ás fontes com frenesi; se, homem, abre a bocca, espanta os olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede o grito agudo obrigado a ambos os sexos, e está pessoa de juizo, capaz de casar, que é quasi sempre a peor das doudices em que os auctores fazem cahir os seus doudos, restaurados para a razão.

Pois o barão de Celorico não se curou por esse theor. Os áditos da razão estavam cerrados de modo que levou longo tempo a despedaça'-los. A continua assistencia de Almeida ao pé do leito, e as continuadas insinuações de Ludovina, conseguiram rehabilitar-lhe o juizo, mas vagarosamente. O barão parecia emergir d'um pesadello atroz quando reconheceu Almeida. Não houve exclamações nem abraços de pé atraz, secundam artem. Lagrimas, sim, as da baroneza, cujo contentamento desmentia as conjecturas dos primos que a imaginavam lograda{185} nas suas ancias de viuvez. O custoso, depois, foi rebocar os estragos que a demencia fizera no corpo do barão. Foi longa a convalescença. Almeida quiz despedir-se; mas o enfermo erguia as mãos supplicantes pedindo-lhe que o não deixasse.

Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escandalo que presenceára. Repetiu contra Ludovina as injurias que lhe dissera em face. Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de testemunhas que depuzessem no processo da sua honra, e impoz, com auctoridade, a sua mulher a sahida immediata da casa da adultera.

D. Angelica ergueu-se impetuosa e terrivel, exclamando:

—A adultera sou eu!

—Que dizes, Angelica?!—bradou Melchior.

—Adultera sou eu. Ludovina encobriu a minha deshonra com a sua virtude. Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e ve'-los-has estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas, arranca-m'o do seio!

E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os hombros, offerecendo o peito.

—Endoudeceste, minha querida Angelica?—exclamou Pimenta—Faltava-nos esta desgraça! Estás douda! maldita seja tua filha que te levou a esta situação!