«Não estou douda, Melchior! não estou douda! Estou moribunda, e não quero deixar infamada a teus{186} olhos a minha filha. Se eu te pedisse perdão do meu crime, acreditar-me-ias?

—Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angelica! Diz o que quizeres para salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias de amor, que ella te está pagando com o amante ao pé de si.

«Melchior!—disse Angelica com firmeza e gravidade—A tua filha está innocente; a amante de Antonio de Almeida sou eu! Não me perdôes, vinga em mim a tua deshonra, porque o perdão não t'o peço. Sabias, quando me acceitaste como tua, que eu não podia pertencer-te. Collocaste ao meu lado o homem que me fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se era verdadeira a carta que te escrevi em solteira, pedindo á tua commiseração que me deixasses. A mulher que fez isto, não pede perdão. Revolta-se com a coragem do desespero, e deixa-se morrer. Confesso o crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, mas vae pedir perdão áquella santa que quiz poupar tambem a tua dignidade.

Melchior Pimenta saíu do quarto de sua mulher.

Para se armar do punhal de D. Jayme de Bragança, e do infante D. João?

Para se dar um tiro no ouvido?

Para mergulhar da ponte-pensil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes?

Para scismar e endoudecer?

Não, senhores.

Melchior Pimenta foi para a Alfandega, jantou no{187} hotel de Miss Mery, e jogou o voltarete até ás onze horas na Assembléa Portuense.