—Deixas ver a resposta?
—A resposta foram dez cartas.
—Incendiarias?
—Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como foram!
—E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade!
—Não teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza. Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía á cabeça. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou saber de mim duas vezes n'um dia.{208}
—Oh! isso é muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o cuidado...
—Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado, exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação a ponto de delirar. Durante um curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi á baroneza uma duzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a morte sentada á cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria por ella ao Senhor, se a gloria celestial me fosse dada como premio do muito que soffrera, e da muita paciencia com que soffrera na terra os rigores de uma alma que não quiz comprehender-me; perdoava-lhe com a mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me restituir o coração na eternidade.
—Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora.
—Estás ludibriando a minha angustia?—interrogou Marcos Leite com ironico enfado.