—Mais nada... A um doente a maior prova de estima que póde dar-se é mandar-lhe um medico.

«O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria. Mandou-me dar longos passeios a cavallo, e a pé, comer alimentos pouco volumosos e muito substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no coração; a isto redarguiu, sorrindo, o medico matreiro, que verificando-se a morte d'esta viscera, entregasse ao estomago o exercicio das attribuições do coração. Não sei o que elle foi dizer á baroneza: é certo que os cuidados da parte d'ella não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que não precisava morrer para ser amado. Logo que me ergui do leito...

—Da agonia, ou da dôr para variar...

«Nada de chacóta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma viração suavissima,{210} que, sacudindo as urnas das flôres, embalsamava a atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte...

—Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que phantasies não deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos está dando aqui a natureza em primeira mão. Descarna as descripções, e diz o que passaste no convento com a baroneza.

«Estás materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico dos romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpello sanguinario da analyse, tornam-se áridos, brutaes, e famulentos de sensações rijas...

—É assim; todavia, prefiro a descripção da tarde de maio á catilinaria insolente que vaes disparar-me.

«Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais depressa te castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e appareceu sósinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir acompanhada das minhas primas ou de D. Angelica.

—Esse facto é profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já principiam as disciplinas da inveja a verberar-me...

«Saberás tu o que se passou?!