«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr. Leite; mas o amor não póde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser a alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se diz de sublime e celeste ácerca d'esse sentimento, o mais mavioso de todos: mas sem coração essa flor não póde dar perfumes de uma hora. O meu coração desfez-se em lagrimas, cuja historia não é nova para o sr. Marcos Leite. Eu não o amo, não o posso amar, apenas lhe vejo todas as boas qualidades que se podem desejar n'um amigo. Quadra-lhe esta affeição? quer-me para sua amiga? está decidido a acceitar deveras este offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas desprezou?

—Desprezei?

«Sim; pois que outro nome se deve dar ás suas cartas escriptas com um fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia respeitar a minha posição, compadecer-se dos meus infortunios, e acolher-me á sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que só os melindres d'uma verdadeira amizade podem suavisar? Não é meu amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do coração capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça, e quiz parti'-la.

«Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga?{213}

—Mais alguma cousa: disse-me v. ex.ª que me não amava; agora diga que me despreza.

—Não posso. Sou sua amiga: não ha n'este mundo outro homem a quem eu possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais que posso ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe, que está doente e só.»

O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de João José Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razão porque eu me não ria.

—Esses triumphos são parecidos com as minhas derrotas—disse-lhe eu.

—É que tu não sabes nada do coração humano!—replicou o singular provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo por quem não conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite.

Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem á estrada real da terra da promissão—proseguiu elle;—Josué está defronte das muralhas de Jericó. A trombeta da anniquillação vae soar. A virtude de Ludovina está abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possiveis no romance, e impossiveis na vida qual ella é, e como bom é que ella seja para que este mundo se supporte desde o amanhecer até que o sol refresca a sua fronte abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com esta nesga de estylo? Até os olhos se te riem quando ouves tolices euphonicas!... Vou concluir.