«Muito egoistas são os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como eu, que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha solidão por v. s.ª que me offerece o seu amor. Respondo-lhe{215} que o não posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel aos prazeres dos affectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquelle desabafo e confidencia que fórma as amizades immorredouras. V. s.ª escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dôr é para si tão respeitavel que não ousará mais despertar-me o desejo de alegrias impossiveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora de um amigo, e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaça de se matar, porque a sua mortificação é insupportavel.

«Egoismo, e tyrannia!

«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem me dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo de estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração, sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a innocencia de crêr que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza, que o não satisfaço com o grande affecto de amiga que lhe dou.

«Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição? Não adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que entrei n'um caminho de amarguras voluntarias d'onde não posso desviar-me uma linha, sem converter em remorsos a consciencia das boas acções que pratiquei até hoje? Deixe-me tambem ser egoista das minhas virtudes,{216} porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem para soffrer o pouco de vida que me resta.

«Eu avalio o seu coração. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que teriamos a bemaventurança na terra.

«Agora, porém, não ha futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo.

«São as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga Ludovina.

—Que esperas agora, Marcos?—perguntei eu.

—Espero que ella se compadeça da minha humildade.

—Humildade não entendo...