—Cala-te, impio! não cuspas na face da martyr! Conta-me os promenores d'essa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortunio...
—Qual? adivinha lá...
—A morte de D. Angelica.
—Justamente: morreu ha tres semanas.
—Atormentada de saudades... pobre mulher!
—Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um retrato no seio, ainda embaciado pelo ultimo respiro que ella exhalou. Devia ser o retrato de Antonio de Almeida. Tambem me disseram que viram ajoelhar Ludovina ao pé do cadaver, e lhe ouviram dizer: «A sua memoria fica sem mancha, minha mãe!»
—Isso é triste, Marcos! Comprehendes tu a santidade d'essas palavras?
—Comprehendo; mas abomino a melancolia. O mundo acceita estes heroismos como exquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de bom no coração, e quero ter grande partilha no cynismo que elle dá em paga.{220}
—Não importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa.
—Parece-me que o seria, se não sahisse de ao pé do tumulo de sua mãe. Se João José Dias avilta uma creatura que é só humana, com o seu contacto, como ha-de elle sustentar as qualidades de um anjo?