João foi cachôpo para o Brasil, e estreou-se n'uma loja de molhados, onde grangeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma talha de azeite de tres almudes, e aguentava com ella do armazem para a loja, sem impar. Levantava do sobrado para o balcão o peso das tres arrobas com os dentes. Punha a prumo meia pipa de cachaça, e levava á bôca, sem gemer, um barril de dois almudes, com o braço testo na aza. Isto constou na rua dos Pescadores, e, ao terceiro anno, João era alliciado por varios patrões, que disputavam o lanço.

Não pertencem á alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de João José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal caixeiro nunca foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites, feitos á sua cubiça de melhores ordenados, repelliu-os sempre, dizendo que nunca deixaria a casa onde comera o primeiro bocado de pão. O augmento de ordenado vinha sempre espontaneo dos patrões: podendo inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José se queixou dos pequenos ganhos.

Os paes de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se desfizeram do unico cevado e de uma vitella para pagarem a passagem do rapaz. João{42} não esqueceu estes sacrificios nem as lagrimas que vira no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em ouro embrulhado em seis camadas de papel.

Os lucros dos tres primeiros annos foram quasi todos enviados a seus paes, e, d'ahi em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas mesadas para os velhos, que lh'os devolviam em roupas brancas.

João José, morrendo um socio da casa, achou-se herdeiro da terça parte do negocio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver descançado na patria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação, continuou na sociedade.

Veiu a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca de um convento, e, deixando o uso-fructo aos paes para que vivessem regalados, voltou ao Rio de Janeiro, onde achou fallida a sua casa commercial, e compromettida a compra que fizera na terra.

Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem.

Aconselharam-no que intentasse acção judiciaria contra os socios. Rejeitou o alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Acceitou os enormes creditos que lhe offereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze annos pagou as dividas de seus socios, e liquidou cem contos de réis fortes, entre os quaes, diz elle, e dizem todos os que o conheceram, não havia cinco réis adquiridos deshonrosamente.

Chegou a Portugal em 1848. O pae era morto e a mãe octogenaria estava entrevadinha, pedindo ao Senhor{43} que a não remisse das penas d'este mundo sem ver seu filho.

João José Dias assistiu seis annos aos longos paroxismos de sua mãe, adoçados com as lagrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos braços do filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando com ella já que Deus lhe déra a riqueza.