Passado o luto, o capitalista veiu ao Porto, e conheceu casualmente, na alfandega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade de uns despachos.

Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfandega com uma formosa menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia immediato foi á praça, e colheu de alguns negociantes informações ácerca da filha de Melchior.

Todos á uma lhe disseram que a menina gosava de excellente opinião; mas tinha só o defeito de querer hombrear em luxo com as filhas dos negociantes mais abastados. Um dos informadores accrescentou que os tafetás, as rendas, e as pelliças da filha do empregado da alfandega não pagavam direitos.

Esta mordedura dos malevolos não magoou João José Dias.

Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da tenção que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que fizera a sua mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e muito facil o realisa'-la. Replicou o brazileiro pedindo que lhe{44} indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua escolha estava feita. Averiguada a cousa, a escolhida era a filha do sr. Melchior Pimenta, que não cabia n'um sino.

—Isto é um modo de falar...—observou João José—Sem que sua filha dê o sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá á moda dos janotas, como por ahi dizem. A sua filha é muito nova, e quererá um rapaz. Fale com ella, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o senhor quizer; se ella quiz, muito bem; se não quiz, ficamos amiguinhos como d'antes.

—A minha filha é docil e ajuizada: ha-de querer o que eu quizer. Foi educada por uma mãe, que teve melhores principios que eu, e faz com que ella lhe obedeça, tractando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha será sua esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a nossa casa, para conhecer o coração da minha Ludovina.

É este o resumo do grande dialogo que precedeu a apresentação do sr. João José Dias a D. Angelica.


Não querendo eu, nem por sombras, indispôr contra os meus fieis escriptos o imperio do Brazil, peço ao meu sisudo editor que faça estampar o seguinte epilogo d'este capitulo: