—Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do outro que me matou.

—Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miseravel?

—Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja possivel.

—Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...

—Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse infame, dirão que devia ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar com um homem ridiculo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a calumnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam á riqueza. O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o homem que me comprou... nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha boa mãe. Deu—me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que{50} esse homem disse... palavras de tanta afflicção como vergonha para mim... Fiquei bem, estou desopprimida... vê? já não choro.

D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto, conversavam assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta:

—Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?

—Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não olhava direita para mim!

—Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?

—Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas, que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...