D. ANGELICA THEODORINA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOS
TEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.ª
O CASAMENTO DE SUA FILHA
A EX.MA SR.ª
D. LUDOVINA DA GLORIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOS
COM O ILL.MO SR.
JOÃO JOSÉ DIAS
Os appellidos heraldicos abalaram os espiritos pechosos d'aquella fidalguia de travessão que por alli enxamêa.
Devia ser filha segunda de casa muito distincta a que descera até aos fabulosos milhões do João da Chan-de-Cima: diziam-n'o assim os que d'aquelle modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos.
Consentiram algumas familias em visitar os noivos. Um dos fidalgos, esmerilhando a procedencia genealogica de D. Angelica, descobriu que um seu tio-visavô sahira da casa dos Ciprestes para ir entroncar na nobilissima familia dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiôlo, d'onde era oriunda a avó de D. Angelica. Feito o descobrimento, D. Ludovina achou-se prima de tudo que faz o lustre e ornamento de Celorico, Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso.
João José Dias tambem era primo dos primos de sua mulher; e, de si para si, ao bom do homem dava-lhe para rir-se á socapa da parentella. A lingua não se lhe ageitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos Ciprestes,{59} aos do Reguengo, aos da Capella, e outros que frequentavam, mais do que elle queria, a casa e o espirito attrahente da sua sogra, espanto das fidalgas analphabetas.
Sem embargo, o capitalista simulava affectuosa estima aos hospedes, e contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas.
D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava em tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus enfeites com desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessario para projectarem passeios, romarias, e saraus por aquellas redondezas.
Annuia o conjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso dizia-lhe que sua mulher era uma creança, vezada a bailes, e ainda verde para gostar da quietação domestica. Bem via elle a innocente alegria com que Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se não desprezo, com que ella acceitava as louvaminhas dos primos.
D. Angelica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violencia que elle fazia ao genio e aos annos ronceiros, para andar n'aquella lufa-lufa de visita em visita, bifurcado n'um macho, que lhe contundia as carnes com o chouto ingrato. Receosa de que a impaciencia rebentasse em fim por algum dito menos delicado á mulher, quiz ella prevenir o desgosto de ambos, dizendo uma vez á filha:
«Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes{60} de teu marido, Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os annos extranham esta transição.