—Que quer a mãe que eu faça?

«Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que tenhas com elle algumas horas mais de convivencia.

—Que hei de eu dizer-lhe?!

«O que has-de tu dizer-lhe?!...

—Sim, mamã. Temos occasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos tres palavras. Sou amiga d'elle; mas não sei como hei-de mostrar-lh'o de outro modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os castanheiros; mas eu não creio que se possa viver assim na aldeia. Se elle ainda me não disse nada, porque ha de a minha mãe censurar-me este desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na minha situação, e a mãe a lembrar-m'a! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está persuadida que eu devo estar extasiada de contentamento deante de meu marido?

«Não creio que te devas extasiar, mas tambem não approvo que te arrependas. Como explicas tu a consideração, o respeito com que és tractada? Pensas que o seres casada com este homem te desmerecesse aos olhos d'esta gente, que lhe chama parente?

—E a felicidade é isso, mãe?!

«A felicidade não é cousa nenhuma d'esta vida, e, se alguma existe cá, é a que dá á consciencia da mulher casada o prazer de não envergonhar seu marido.{61}

—Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe?

«Não t'as applico, Ludovina: respondi á tua pergunta. A felicidade no amor é um creancice dos quinze annos, e ás vezes dos quarenta; mas o desengano vem com todos os homens e com todas as edades. Não te persuadas que a vida te seria aqui mais risonha, por muito tempo, com um marido de tua escolha. Este homem, d'aqui a tres mezes, has-de ama'-lo como se ama um amigo. O outro, d'aqui a tres mezes, ama'-lo-ias com o afflictivo amor da mulher que enfastia, que se vê cada vez mais aborrecida, e compara os ardores dos primeiros mezes de casada com a fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos infortunios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor a seu marido com a peçonha da infidelidade, comprehendes-me, Ludovina? Eu não consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres casadas que viste conciliadas com o despreso dos maridos, acceitando a adoração de outros, como vingança, e fazendo do crime uma necessidade. Lembra-te só d'ellas como mulheres que casaram apaixonadas, que doudejaram de alegria nos primeiros tempos, e pareciam cheias de felicidade para toda a vida. Não te recommendo paciencia, Ludovina, porque ninguem te dá causa de soffrimento; recommendo-te juizo. Este homem ha-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da melhor affeição, da que mais dura n'este mundo; terás o bem que raras vezes fica de um amor ardente.