—Que motivo ha, snr. commendador—disse D. Angelica—para se encerrar n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o tratava?

«Eu vivo assim melhor.

—Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico, divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o vissem com sua mulher em toda a parte...

«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar.

—Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente uma á outra. O senhor é casado{71} com uma menina habituada aos innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-hei que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se previsse o que está acontecendo.

«Então que é?

—É que minha filha não póde assim viver contente.

«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella.

—Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. O peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de offender a sua dignidade.

«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam á pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da d'ella. Nada de bailes, sr.ª D. Angelica. Minha mulher, se quer passear tem ahi uma carruagem e eu estou prompto a acompanha'-la para toda a parte.