—Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações da nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada que ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas de suas amigas?
«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as{72} outras não dizem cousa boa. O melhor é cada um em sua casa.
—Que razão essa tão... tão singular!
«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo que faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero que minha mulher ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde lhe appareceu o tal namorado que ella teve, não tinhamos todos a zanga com que sahimos de lá. Em casa, em casa é onde se está melhor.
—Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por suspeitar da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei poder para accomoda'-las.
«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não quero que os outros desconfiem, e acabou-se.
O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á intelligencia equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de versaletes:
EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.
Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador.{73}
Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão que as melhores d'este livro são ellas.