O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu ciume, alguma cousa que possa ler-se em lettra redonda.

A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer as prosas toleraveis dos maridos?

A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo aos escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de remendos alheios, que se escreverem a seguinte maxima:

Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para que os outros não desconfiem; escrevam por baixo —O commendador JOÃO JOSÉ DIAS.

As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais felizes. O commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores. Os fados, os estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas palavras com que elle arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da memoria.

O castigo começa.{74}
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VII

Ludovina disse um dia a sua mãe:

—Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como creança, a minha mãe, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa familia com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil, docil até á pusillanimidade. Se a violencia não fosse tamanha, este homem que chamam meu marido, teria feito a escravidão da minha alma para sempre. Assim não póde ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de creança; envelheceram-me com os desgostos continuos, e por isso hão de soffrer-me agora emancipada.

—Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?