—Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppressão á custa de tudo.

—Ludovina! que linguagem é essa?

—É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto, por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo apartada das{76} minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha reputação saíu sempre sem mancha.

—A quem o perguntas, a mim?

—Sim, á mãe, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a minha liberdade é o preço d'essas cousas, deixo-lh'as, e peço a meu pae a subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirará o destino que me convém. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto tempo, por amor proprio, ou pela virtude da paciencia.

—Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente; vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes.

—E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das minhas intenções?

—Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has.

Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca tão achamboada e trombuda se mostrára a lerda physionomia do personagem. N'essa occasião, o achaque intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era o ideal da fealdade, então, o sr. Dias!

D. Angelica, instada por um gesto da filha, deixára-os sós.