—É a primeira vez—disse Ludovina, sentada n'uma cadeira de braços estofada, com a formosa face encostada á palma da mão direita, e uma perna sobre a outra balouçando-se, deixando ver o pé de fada, através{77} do rendilhado da saia que a velava.—É a primeira vez que falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o como se trata um amigo que se respeita, um tio, um pae d'esses com quem se não tem muita confiança.

O snr. Dias abriu a bôca para entender melhor. D. Ludovina proseguiu:

—Poucas filhas ha tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na qualidade de mulher. Tudo que ha n'esta casa, snr. Dias, seu tem sido, como seria, se eu aqui não fosse mais que uma pessoa extranha, sujeita á sua generosidade. A sua vontade é o movel das minhas acções. Em quanto o senhor me concedeu a liberdade honesta, que meus paes me concediam, acceitei-a, sem lh'a agradecer, porque achei isso tão natural como absurdo e impossivel o contrario. Logo que o senhor, sem me explicar a causa da sua mudança, de repente me afastou da sociedade, como se faz ás pessoas incapazes de viverem n'ella, acceitei tambem, sem me queixar, o captiveiro, e supportei-o seis mezes como uma mulher culpada que expia a culpa com a paciencia muda. O snr. Dias, sem saber o que fez, expoz sua mulher aos commentarios offensivos que a sociedade ha de ter feito á minha ausencia repentina. Deu um escandalo, sem necessidade de evitar outro. Disse á sociedade que não tinha bastante confiança em mim para me levar onde ha o bom e o mau.

«Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguem—interrompeu o commendador, que andou ás aranhas{78} muito tempo antes que traduzisse para vulgar o estylo sentencioso da filha e discipula de D. Angela.

—Não o disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de ir aos bailes, de frequentar o theatro, de receber as minhas amigas de collegio, e as relações de minha familia, o que diria a sociedade?

«Lá o que ella quizer, menina...

—O que ella quizer, não, snr. Dias! Não consinto que se façam de mim conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo d'esta separação injusta a que me fórça.

«Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te metteu na cabeça essas palavras? Bem diz lá o ditado: «Livra-te da sogra, que eu te livrarei do diabo.»

—Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela bôca de minha mãe; o meu silencio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor proprio, e outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos ao essencial, snr. Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como vivem todas as mulheres casadas da boa sociedade?

«Não, já disse que não. A cousa é outra...