«Eu vou comsigo... espere um bocadinho.

—Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada.

Foi.

Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina do mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da lua ia-se descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica das vinte e quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia da manhã, dorme toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.

O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam. Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu jardim, até parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é justamente aquella por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando imprecações garrafaes contra o charuto incombustivel. N'esse muro havia uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O barão abriu machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella um vulto embuçado, que lhe disse:

—Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?

—O que é?—exclamou o barão atordoado.

O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia escuridão.

Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter perdido a memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que recolhia ao quartel, vendo{88} aquelle immovel espectaculo, através das grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando attentivamente, ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que estava alli um homem.

—Olá!—disse um soldado.