Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella do jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava com escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem era o proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa, e recebeu a chave.

D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de{94} ferragem, e comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e, n'outra parte, as munições de fogo.

Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram arrancar-lhe tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no fim do almoço, e disse em segredo:

«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo isso, de modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e entrega-me a chave depois.

O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas reflexões.

Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe. Era aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao almoço, ao jantar, á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que a matou. Esta historia entalhára-se na memoria do barão com indeleveis traços. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que não desculpou a victima, mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias fez a apologia do verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se vingava.» Ludovina fitou-o{95} com espanto, e acreditou que o ciume seria capaz de desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.

Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa encubação do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma façanha, mais ou menos plagiaria, da medonha expiação da adultera.

Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua mulher. Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal exquisitice.

—Não dou satisfações—respondeu—Quero jantar, e almoçar sósinho comsigo.

—Isso é o mesmo que...