A casta lua dá a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o escandalo resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o epitheto. Só ella seria capaz de manter-se pura com tantos exemplos de corrupção. De mim creio que a tem salvado a distancia que a separa dos bardos que a namoram; e, se não é a distancia, é a impertinencia das cartas rimadas que lhe mandam. Muitas mulheres, menos castas que a lua, teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas, que amam em verso, são uns puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos fizessemos versos, e nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este globo era um viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de Maltus um absurdo. Não andariamos travados em permanente lucta, nem a exuberancia da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de nos matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que esforçar a guerra á prosa que inventou{100} os cereaes, o boi cozido, as acções do banco e a troca de um romance por quinhentos réis.

Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.

Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como de dia.

Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa tinha uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo, depois que o encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, caíndo sobre a fresta das duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe o colorido de uma cidra avelada.

Soára o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade do jardim se abriu cautelosamente.

Um objecto branco sobresaía na sombra: devia ser o lenço de uma mulher.

Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto encapotado, que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura da janella desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da lingueta de uma chave. Era a porta do jardim que se abria ao avizinhar-se o vulto.

A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de uma janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que elle viu foi o lampejo da detonação de um tiro, e levou a mão ao hombro esquerdo. Seguiu-se um pulo incrivel do barão fóra da janella, a fuga precipitada do vulto, e um segundo{101} tiro, que redobrou a força motriz do fugitivo.

Apitára uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas apitaram. A cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um homem extendido na rua, e disseram em voz alta, que o barão ouvira:—parece que está morto.

O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta á chave. Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos arbustos, contiguos á casa, perpassar um vulto, e sumir-se.