Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue, antevendo um violento embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher, colorindo a retirada com a prudencia.

O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:{98}

—Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu tenho.

Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.

O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta, comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de lagrimas, sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar o amo, cujo pão comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora tambem, e pergunta a medo a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em gemidos o bemfeitor, e ergue-se extenuado, e vacillante, como se os sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae.

As angustias d'este homem condemnam Ludovina?

Não. Ludovina é innocente como os anjos.

A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na algibeira: é o charuto de Francisco Nunes.{99}

X

É meia noite e um quarto no relogio da Lapa.