—Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica—replicou o barão, sorrindo de um modo que confirmava a demencia—A cousa é outra... Vamos jantar, e, se minha mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa.{97}

Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que as protegesse de um doudo furioso.

Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar caír, ao pé do prato da baroneza o charuto.

Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo:

—Olhem que porcaria!—E voltando-se para o creado que servia a sôpa:

—Atire isto lá fóra!

—Não atires!—bradou o barão.

—Porque não ha de atirar?!—Disse Melchior Pimenta.

—Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?

Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára sobre a mesa.