Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos; esse raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angelica reparasse na pallidez da filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A parte da sua dôr, que até alli fôra remorso, seria depois vergonha, e vergonha de sua filha, tortura mil vezes mais pungente que a mordedura do remorso para a que soube ser mãe, e affrontou os deveres de esposa.

A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao pé da mãe, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento.

«A mãe precisa descançar—disse ella com affectado gesto de carinho—Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua cama.

—Não, filha; eu não tenho descanço n'este mundo, nem no outro. Se ainda tenho algum direito á tua obediencia,{107} deixa-me só; preciso de chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu coração as chore. Não pódes respeitar esta agonia, porque não a comprehendes, innocente martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres depois.

«Sei, mãe.

—Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraçando-a convulsivamente.

«O meu silencio responde-lhe, mãe... Não soffra pela minha deshonra. Deus sabe tudo; não me importa o mundo; a Providencia fará vêr a verdade a meu marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por quem é. Não diga nada ao barão, e poupe meu pae. Eu sinto-me com forças para não vergar a um peso de infamação que me não cáe sobre a consciencia. Se o meu amor a póde consolar, não diga o seu segredo a ninguem; não diga porque eu não sei qual dos dois descreditos é mais afflictivo para mim...

D. Angelica resvalou dos braços da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos pés.

Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta.

Era o barão de Celorico.